31 julho 2006

Quote of the day - Human League / The Lebanon

She dreams of nineteen sixty-nine
Before the soldiers came
The life was cheap on bread and wine
And sharing meant no shame
She is awakened by the screams
Of rockets flying from nearby
And scared she clings onto her dreams
To beat the fear that she might die
And who will have won when the soldiers have gone
From the Lebanon, the Lebanon
Before he leaves the camp he stops
He scans the world outside
And where there used to be some shops
Is where the snipers sometimes hide
He left his home the week before
He thought hed be like the police
But now he finds he is at war
Werent we supposed to keep the peace
And who will have won when the soldiers have gone
From the Lebanon, the Lebanon
I must be dreaming, it cant be true




A canção é de 1984. 22 anos depois parece que está tudo na mesma.

(Só o clip é que parece hoje ainda pior e mais absurdo do que quando foi feito)

30 julho 2006

I'm gonna spend all your money

A canção é boa. O vídeo original já era divertido (mas o mais divertido de tudo é que a MTV deixa passar o Lincoln numa barra de strip e censura as palavras "nuclear war") .




Agora alguém se lembrou de fazer um clip com o casal gay mais perigoso da história da humanidade. Podiam ter levado a coisa um bocadinho mais longe, mas ainda assim está com piada.

25 julho 2006

Caixa de Clips 008 - Bow Wow Wow / Chihuahua (1981)

Malcolm McLaren, o grande ladrão que inventou os Sex Pistols e o punk inglês depois de ver um concerto de Tom Verlaine e de Richard Hell em NY, fez mais algumas coisas amáveis antes de tentar uma patética carreira a solo. Uma delas foi pegar nos restos da banda de Adam Ant e juntar-lhes Annabella Lwyn, uma rapariguinha de 14 anos com corpinho de 18 e à-vontade de 23, de tal forma que até aparecia nua na capa do primeiro disco da banda (embora, valha a verdade, pudicamente nua) numa recriação do "Déjeuner sur l'herbe" de Manet. Queréis ver? Então está bem:


Os Bow Wow Wow assentavam numa secção rítmica poderosíssima, com um baixo frenético sobre tambores que se diria tocados por um antepassado de Kunta Kinte (lembram-se dele, brigada dos trintões?). Por cima disto tudo a voz inocente de Annabella, que sem avisar passa de um registo sussurrante para um delírio de berros e impropérios. Tal como outras bandas inglesas desta fornada de 80/81, os BWW foram buscar inspiração aos trópicos. Mas contrariamente à maioria (Kid Creole, UB40, Specials e toda a seita Ska) não alinharam em ritmos caribenhos; foram directamente à fonte e aos ritmos mais tribais da África negra. Tal como faziam os A Certain Ratio (calma, eles hão-de chegar), e como do outro lado do grande mar oceano faziam os Talking Heads no fantástico Remain in light. Se até os Echo and the Bunnymen chegaram a tocar com os Royal Drummers of Burundi...

Apesar do sucesso que lhes foi augurado, a carreira não foi muito longa. Separaram-se em 1983, com apenas três álbuns gravados. Annabella encontrou entretanto uma vocação budista (?!?!?!?!?), segundo informa o seu franciscanamente pobre site. Há 25 anos ninguém diria, ao ouvi-la gritar "I'm a rock'n roll puppet in a band called Bow Wow Wow!" enquanto puxava o seu guitarrista pela trela e o açoitava com o cinto. Mas as vocações não escolhem idade - que o diga S. Paulo, que ao que consta também gostava de dar as suas chicotadas antes de apanhar a tal estrada de Damasco.

Miguel Esteves Cardoso escrevia em Dezembro de 80 sobre os BWW: "Esta é a música comercial pop do futuro: efusiva, sem tréguas, apaixonada e imediata". E repetia em Abril seguinte, sempre no Se7e: "não é preciso uma bola de cristal para prever o futuro da música Pop - basta uma cassetre dos Bow wow wow e saber conjugar o verbo Bauauar" (tudo isto compilado, claro está, na sua "Escrítica pop"). Infelizmente o futuro não foi assim tão risonho para a Bella Anna (como lhe chamaria alguém que eu cá sei). Mas felizmente deixaram-nos músicas como este Chihuahua. Enjoy!


24 julho 2006

Quote of the day - Iggy Pop / Shades

I'm not the kind of guy who dresses like a king,
And a really fine pair of shades means everything
And the light that blinds my eyes shines from you
It makes me come in the night
It makes me swim with delight
I like this pain
I like this mirror
I like these shades


O vosso amigo comprou uns óculos de sol novos que são uma categoria. Se dantes já era um gajo com pinta, nem queiram saber agora.

Desgraçadamente não se arranja o clip desta canção. Mas para não ficarem tristes fica aqui outra do mesmo disco.

20 julho 2006

Quote of the day - Pixies / I've been tired

She said "I could tell you a story that could make you cry"
"What about you?" I said "Me too"
"I could tell you a story that will make you cry"
And she sighed "Aaahh"


Amanhã de tarde vou estar a fazer orais.
Depois de amanhã pela manhã vou estar a fazer orais.
Amanhã à noite os Pixies tocam em Lisboa. Obviamente, não posso ir.
Não é propriamente uma história que faça chorar. Mas que é uma merda, lá isso é.

17 julho 2006

Ainda a tempo...


A C-70 informa os seus leitores e amigos que a RTP-2 (aliás, a 2:) vai transmitir esta semana este extra-excelente documentário em que o mestre Martin nos explica como foi influenciado pelo cinema da sua pátria-avó. Absolutamente imperdível, a partir das 00.20 de hoje.

16 julho 2006

Quote of the day - Os Resentidos / Galicia canibal

Con isto da movida - ¡que movida! - haiche moito ye-yé
que de noite e de día usa jafas de sol,
¡Fai un sol de carallo!

A C-70 passou o fim de semana em dieta e cura de águas na Galiza. E achou por bem, até para se associar às comemorações oficiais do 20º aniversário deste LP (que de resto ainda tem em vinil), recordar às novas gerações que em tempos uma canção de uma banda de Vigo era passagem assídua no Batô ou na States, o primo de Coimbra.

Infelizmente o som dos Resentidos envelheceu muito mal. Mas esta continua a ser uma bela malha.

13 julho 2006

Caixa de Clips 007 - Bee Gees / Stayin' Alive

1977 não foi só crista, meus amigos. Não foi só alfinetes e calças rotas. Não foi só gajos feios a vomitar. Também foi gajos limpinhos vestidos de branco, ainda por cima irmãos, a cantar em falsete e a porem meio mundo a apontar para o tecto e para o chão. E a venderem que nem pão de ló (só a BSO do Saturday Night Fever vendeu para cima de 40 milhões). Os Brothers chamavam-se Gibb - hence, Bee Gees.
Confesso que quando vejo isto nunca sei o que é mais admirável: se o primogénito Barry, líder incontestado e insaciável compositor de êxitos, com o seu porte altivo, a sua impecável dentadura, a bela calça branca e jaqueta prateada e aquela vozinha de quem foi tirar um quisto e acabou por ficar sem mais qualquer coisa; se o mano Robin com a sua pujante cabeleira com risca ao lado e aquela cara de idiota que o Altíssimo teve a crueldade de lhe dar; ou se o saudoso mano Maurice mais o seu indisfarçável ar de morcão, aparentemente o mais discreto dos três mas capaz de proporcionar um momento de puro terror, qual filme do George Romero, à passagem dos 2.17'. Ou se nenhum em especial, mas antes o constante menear pélvico do trio, antecipando em muitos anos o fenómeno "bomba" e o seu movimiento sexy, ou a constante aparição às portas e janelas de casas em ruínas, ou a micro-coreografia com que nos brindam à passagem dos 2.29'.
A única dúvida é se este, conquanto mais subtil e contido, não é ainda melhor - quanto mais não seja pela soberba saída de cena à Lucky Luke. Uns senhores!

Já não há homens como dantes, é o que é.

11 julho 2006

Quote of the day - Pulp / Babies

Oh, we were on the bed when you came home,
I heard you stop outside the door
I know you won't believe it's true,
I only went with her 'cos she looks like you, my God!
Oh I want to take you home,
I want to give you children,
You might be my girlfriend,
yeah yeah yeah yeah yeah yeah!




Prometo que dou um doce a quem me fizer ouvir uma canção pop melhor do que esta. Mas atenção, não vale dizer esta. Nem esta. Nem esta. E muito menos esta. Nem outras 10 ou 15 de que me estou a lembrar.

O que leva a C-70 a perguntar ao seu auditório, gente de reconhecido bom gosto: foram os Pulp a melhor banda 100% pop dos 90's?


07 julho 2006

Caixa de Clips 006 - Buzzcocks / What do I get

Há quem chame aos Buzzcocks os Beatles do punk. Pessoalmente acho isso insultuoso para os Buzzcocks, mas não é o que está agora em causa (escreverei um post sobre os Beatles num dia em que me sinta suficientemente amargo). O que interessa é que poucas ou nenhumas bandas conseguiram uma reputação de tunesmiths, artífices da composição de canções pop, sem perderem pitada do espírito punk. Dir-me-ao: "ah, e tal, e os Clash, como é que é?" E eu responderei, não sem um ligeiro esgar de desprezo: os Clash são os Clash, ponto. Os Buzzcocks são uma das minhas bandas punk preferidas, os Clash são uma das 4 ou 5 maiores bandas de toda a eternidade. Os Buzzcocks são, salvas as devidas diferenças, uma espécie de Ramones ingleses, embora com um atraso de 2 ou 3 anos.
Os Buzzcocks foram uma das primeiras grandes bandas (senão mesmo a primeira), a sair de Manchester. Poucos anos depois Tony Wilson fundaria a Factory Records, à qual ainda hoje associamos a primeira grande onda musical da cidade do 2º clube de futebol mais antipático do mundo. A Factory dar-nos-ia a conhecer os A Cerain Ratio, os Durutti Column e acima de tudo e de todos os Joy Division e os New Order. Mais tarde, sairiam de Manchester outras bandas extraordinárias como os Smiths, os Happy Mondays e os Stone Roses. Mas, como se percebe bem no excelente 24-hour party people (antes de Michael Winterbottom se dedicar ao soft-porn-rock'n'roll), talvez Tony Wilson nunca tivesse fundado a Factory se não tivesse conhecdo e privado com a seita de tolinhos de que também faziam parte Pete Shelley e Howard Devoto, dois dos fundadores dos Buzzcocks.
A canção mais conhecida dos Buzzcocks é com certeza Ever fallen in love, (aqui numa versão ao vivo) muito por culpa da competente versão dos Fine Young Cannibals. Há muitas outras de calibre aproximado, o que teria dificultado a escolha de hoje não fosse a extrema escassez de clips a sério disponíveis no YouTube. Assim, ficam com What do I get e ficam muito bem, apesar da qualidade não ser a melhor). No entretanto, se não tiverem paciência para os álbuns oiçam a compilação Singles going steady. E digam lá se não é um mimo.
Enjoy!



PS - para os que ainda são do tempo do Countdown e da Europa-TV, digam-me por favor: como raio se chama o cromo que apresentava o programa de onde é tirado este clip? Estou farto de dar voltas à cabeça e não há forma de me lembrar.

06 julho 2006

Quote of the day - The Smiths / I know it's over

Oh Mother, I can feel the soil falling over my head!

Não é que eu seja dos que sentem mais, mas achei que era uma boa canção para hoje.
E a imagem de um francês morto (no caso, o Alain Delon) pode sempre consolar os mais tristes.

30 junho 2006

No tacho do Mestre Joe

Berbigão à Hull (receita para 3 pessoas)
Tempo de preparação e confecção: cerca de 78 min.

Ingredientes:
- berbigão
- 4 dentes de alho
- azeite a gosto
- coentros a gosto
- whisky (bastante)
- gelo (bastante)
- CD dos Housemartins, "Now that´s what I call quite good"

Depois de colocar o CD a tocar, abre-se o saco dos berbigões enquanto se meneia as ancas ao som de I smell winter. Despejam-se os bichos numa bacia com água fria, e revolvem-se para começar a sair a areia ao ritmo de Bow down (pode acompanhar-se a tarefa com uns parapapa). Aproveita-se o momento de reflexão de Think for a minute para por gelo num copo, no qual se deitará whisky enquanto se acompanha o coro de There is always something there to remind me. The mighty ship e Sheep fornecem o balanço ideal para voltar a revolver a água do berbigão, deitando bastante sal na água final. Deita-se azeite no tacho enquanto se avança para o gospel de I´ll be your shelter, a que se acrescenta o alho picado durante Five get over excited. Aproveita-se o momento mais desinspirado de Everyday´s the same para ver o que é que o puto anda a fazer, e a paz de Build, a mais bela canção sobre construção civil, para um pequeno descanso que se prolongará por Step outside e Flag day - durante esta última canção, pensamos como é reconfortante não ter uma bandeira na janela. Já com as forças retemperadas, estamos prontos para atacar um grande momento de dança com a sublime Happy hour, após o que pomos o tacho ao lume até o alho picado alourar enquanto tentamos seguir o falsete na segunda voz de You've got a friend. He ain´t heavy é o momento de deitar os berbigões no tacho, e Freedom pode ser aproveitado, havendo vontade, para verter águas. The people who grinned themselves to death dá um belo pretexto para reforçar o whisky, que por esta altura já foi há muito. Sempre em lume brando, vão-se mexendo pausadamente os berbigões na lenta toada de Caravan of love e The light is always green, e picam-se os coentros com energia enquanto se acompanha We're not deep com oportunos bop bop bop bop bop bop. Durante Me and the farmer podemos descontrair e partir para novo momento de dança de salão, preparando-nos para a espiritualidade de Lean on me que convida à comunhão dos coentros com o demais conteúdo do tacho. Drop down dead deve então ser acompanhada com pancadas enérgicas de colher de pau num tacho (de preferência não o mesmo em que se está a cozinhar) como forma de chamamento geral para a mesa, para a qual todos seguem em fila indiana enquanto cantam Hopelessly devoted to them.
Acompanha com vinho branco muito fresco. Ou cerveja muito fresca. Ou whisky com muito gelo.
Para sobremesa fica o clip de Happy hour, tao bom como a canção.


Só para as novas gerações que não viveram o período de ouro desta banda fantástica: reconhecem o baixista, que é o primeiro a aparecer e na altura era conhecido por Norman Cook? Eu dou uma pista: "check it out now, the ..."

28 junho 2006

Quote of the day - Pavement / Shady Lane

Freeze, dont move
You've been chosen as an extra in the movie adaptation
of the sequel to your life.

A não-entidade em que nos transformamos quando estamos a fazer uma coisa extremamente aborrecida e que nos absorve todo o tempo, energias e boa disposição fez-me lembrar um clip de uma banda sobremaneira apreciada e já repetente aqui na C-70.


Quando chego a esta altuta acabo sempre por me arrepender de não ter feito um exame mais curto. Está decidido: em Setembro é teste americano.
(just kiddin'!!)

17 junho 2006

Caixa de Clips 005 - The Vapors / Turning Japanese

Os Vapors entram numa lista pouco prestigiante para quem quer ser alguém na pop: a de verdadeiros one-hit wonders, bandas ou artistas que anos depois são recordados por uma música, e nada mais. Estão na mesma categoria que um Rick Astley, uns Men Without Hats, um Paul Hardcastle ou uns Double, para não falar da já citada Toni Basil (embora esta tenha tido outra carreira) ou dos futuramente referidos Martha and the Muffins. Não é uma lista que tenhamos orgulho em mostrar aos netos. No entanto, esta canção não seria hoje desdenhada por muitas bandas da newer-wave que têm assaltado os tops nos 00's, nomeadamente pelos próprios Franz Ferdinand. A forma de cantar de Alex Kapranos nem é muito diferente do de Dave Fenton, vocalista dos Vapors, que por sua vez tentava provavelmente imitar Mark Mothersbaugh, vocalista dos Devo.
Muito se tem especulado ao longo dos anos sobre o real significado da letra desta canção. Mas parece hoje assente entre os especialistas que versa sobre prazeres solitários, ao lado de outros poemas de leitura mais evidente como Teenage Kicks, dos Undertones, Dancing with myself, de Billy Idol, Relax, dos grandes FGTH, Pictures of Lilly, dos The Who, The perfect kiss, dos New Order, ou o maior entre todos os clássicos da adolescência (et pour cause...), a hiper-gasta Blister in the sun, dos Violent Femmes. Ao que diz a doutrina mais autorizada, a transformação em japonoca de que fala a letra será uma subtil referência à expressão facial que se faz na hora-H. Convenhamos, no entanto, que dizer "I asked the doctor to take your picture, so I can look at you from inside as well" é no mínimo de gosto duvidoso. Mas cada um com a sua tara; ou como dizem os franceses, il faut de tout pour faire un monde.
Seja como for, aqui fica a canção que em 1980 levou os Vapors ao nº 3 do top britânico e lhes abriu as portas a uma digressão com os The Jam. A canção que vinha numa daquelas cassetes de verão que os meus pais compraram, e que eu ouvi umas duzentas vezes nas viagens para o Algarve. E não sabia eu do que eles estavam a falar...
Enjoy!

15 junho 2006

Quote of the day - The Primitives / Crash

Here you go, way too fast
Don't slow down you're gonna crash
You should watch, watch your step
Don't look out, gonna break your neck

A C-70 vai andar de kart.


Atendendo a que se trata da primeira vez e que o parceiro de veículo tem uma clara vocação de Fangio de domingo, parece adequado recordar este êxito do verão de 88. E digo aqui sem vergonha que esta canção ainda me faz dançar em qualquer ocasião. Ou quase.

Bons tempos, em que os tops eram dominados por bandas com vocalistas loiras...

11 junho 2006

Pela estrada fora, eu vou bem sozinha...

Ainda não fui ver o filme, mas por aquilo que tenho lido quer-me parecer que o realizador de Hard Candy, que estreou esta semana, andou a ver às escondidas telediscos da melhor banda portuguesa.

Para quem não conhece, avisa-se que o clip deste Cão da Morte não tem bolinha vermelha. Tem vários salpicos vermelhos.


10 junho 2006

Discos Perdidos 04 / Fountains of Wayne - Fountains of Wayne (1996, Atlantic)

O disco de estreia dos Fountains of Wayne é uma daquelas pérolas que cresce com o passar do tempo. Quando o comprei achei-o um disco simpático, agradável, mas que provavelmente não resistiria ao passar dos anos e acabaria esquecido numa prateleira. A verdade é que de cada vez que o ponho a tocar me comovo com as pequenas histórias que conta ou que sugere, vinhetas do pequeno quotidiano da classe média americana com um fundo musical que lembra uma actualização dos grupos de baile dos anos 60. Imaginamos este quarteto novaiorquino, quais Shadows, a tocar nos míticos proms onde adolescentes apaixonados dançam um slow. Imaginamos um casal a comer um gelado em frente à montanha russa de Coney Island, secretárias solteiras a irem sozinhas a matinées de cinema, vendedores de enciclopédias a percorrerem o país no seu chevvy, namorados que chegam a vias de facto no enorme banco traseiro do carro do pai. Não que sejam necessariamente esses os temas de cada uma das 12 impecáveis canções do disco. Nem todas são, mas não é isso o que importa - porque até podiam ser. O que torna este disco intemporal aos meus ouvidos é conseguir capturar o imaginário que nós, europeus, formámos dos americanos graças ao cinema, à TV e à literatura. E pouco interessa também, para este efeito, saber se corresponde ou não à verdade; se corresponder é património deles, senão é património nosso.
Não se pode dizer que este álbum tenha sido completamente ignorado pelo público e pela crítica. Chegou a nº 20 nos EUA, e o single Radiation Vibe (podem clicar para ver o clip) a nº 14. Mas há muito mais do que esse excelente single (que de resto até nem é muito representativo da onda geral do álbum). Canções como Survival car, She's got a problem, Barbara H., Sick day ou I've got a flair mereciam ser ouvidas e cantadas por muito mais gente. O sucesso chegaria em maior escala com o 3º álbum, Welcome interstate managers, que chegou a nº 1. O single Stacy's mom (que conta a triste saga de um adolescente apaixonado pela mãe de uma colega) é provavelmente a canção mais conhecida da banda e o seu maior sucesso comercial. No entanto, tanto este disco como o anterior Utopia Parkway não conseguem, nem de perto (no entender deste vosso amigo), ser tão consistentes como o disco de estreia - quase fazendo, aqui e acolá, lembrar os (bllaaaaaaaargggh!!) Oasis. Daí que eleja esta primeira obra como a obra prima destes quatro aspirantes a nerds. Acresce que os rapazes tiveram a simpatia, para não dizer o extremo bom gosto, de chamar Joe Rey a uma das suas malhas. E dizem sobre esse personagem, "he's cool, cool, cooler than I am". Não é lindo? Digam lá, é possível não gostar de um disco assim?
Há pouco tempo li, creio que num número da Rockdelux, que os Nada Surf de hoje em dia soam como uma espécie de FOW com trinta e muitos anos. É uma boa maneira de pôr as coisas (até pela semelhança de tom de voz entre Chris Collingwood e Matthew Caws). Mas só a verão se ouvirem este álbum, the real deal. Descubram-no, então.

06 junho 2006

Caixa de Clips 004 - David Bowie / Be my wife

E ao quarto vídeo, aparece o homem que durante toda a década de 70 esteve no olho da tempestade, no centro do furacão, no epicentro do terramoto. O artista sem o qual o glam não teria sido glam, e portanto o punk não teria sido o mesmo punk, sem o qual os new-romantics teriam sido diferentes e o synth-pop mais aborrecido. O músico sem o qual a música de hoje seria muito diferente, de certeza que para pior. Quem conhece os meus gostos, por me conhecer ou por costumar passar aqui pela C-70, já desconfiará porventura que este cavalheiro é a minha maior referência musical. Não se enganou.
Como já disse, esta rubrica da C-70 pretende mostrar clips representativos da era 77-83, talvez o meu periodo preferido da pop. O clip que escolhi praticamente inaugura a era, mas não parece. É de 1977, um ano de colheita ímpar em que deste lado do Atlântico se editaram os primeiros discos dos Sex Pistols (neste caso, primeiro e único), Clash ou Damned e em que Brian Eno gravava Before and after science. O mesmo ano em que, do lado de lá, os Ramones editaram Leave Home e Rocket to Russia, os Talking Heads e os Television gravaram as suas estreias, 77 e Marquee Moon, e Richard Hell e Johnny Thunders editavam, respectivamente, Blank generation e L.A.M.F. Um ano, portanto, do caraças!!
Nesse ano incomparável, houve uns mais activos do que outros. E um dos mais activos foi com certeza Bowie, que não se limitou a editar um disco. Editou dois, e que dois - Low e "Heroes". Mas fez mais: produziu e co-escreveu outros dois com Iggy Pop, seu amigo de longa data e camarada de exílio na cidade do Muro. E que dois - The Idiot e Lust for Life. Apenas quatro dos melhores álbuns da década, todos de 1977 e todos com uma intervenção directa do Thin White Duke. Estranhamente, este período de hiper-actividade é descrito pelo próprio como um dos piores de toda a sua vida - daí o nome Low. É caso para dizer "deprime-te mais vezes, homem!".
Be my wife, a música que podem ouvir já qui em baixo, é uma espécie de elo perdido entre os Roxy Music e os Pixies. Não soa a 77, tal como Marquee Moon (onde não destoria) também não. Vai beber ao glam e projecta o rock dos 80's. É um hino ao desespero de quem tem o mundo aos seus pés mas não consegue dormir, o grito de quem está completamente sozinho no meio de uma multidão que o idolatra. Um haiku sobre a condição humana. Um Citizen Kane proto-punk em três minutos.
E é também uma das minhas canções preferidas. Enjoy!



PS - Como brinde inteiramente grátis, ficam os links para uma canção de cada um dos outros três álbuns deste período ("Heroes", Lodger e Scary Monsters). A versão de Heroes não é a original, que toda a gente já conhece e que tem um péssimo clip, mas uma outra gravada para o programa de Natal de Bing Crosby em que Bowie fez uma inesperada aparição.

"Heroes" (1977)
Look back in anger (1979)
Fashion (1980)

04 junho 2006

Balanço intercalar 2006

A brincar a brincar, 2006 já vai quase a meio. E o que tem saído, mais o que está para sair, faz antever que o ano vai ser assim-assim. Como diria o sábio Gabriel Alves "nem bom nem mau, muito antes pelo contrário". Vejamos algumas coisas que andam pelo ar e que têm tratado de gastar a bateria ao meu leitor MP3. Com a ressalva de que em alguns casos se trata de primeiras ou segundas impressões, sujeitas a alteração após audições mais atentas.
Amanhã, dia 5, é posto à venda Riot City Blues, o novo dos Primal Scream. E a C-70 está em condições de garantir que está GRANDE MALHA. Deixaram-se de merdas, voltaram a escrever com vogais e a fazer rock'n roll puro e duro, e o resultado é uma espécie de Give out but don't give up para melhor. Não vão com toda a certeza levar o prémio "originalidade" ou "novas tendências" de 2006, mas se houver outro disco tão divertido como este, ou que me faça dar tantos pinotes enquanto preparo o jantar, o ano já não será nada mau.
Primal Scream - Country Girl
Já o mesmo não posso dizer da estreia a solo de Thom Yorke, vocalista dos Radiohead. The eraser, com edição prevista para Julho, é uma seca. A banda já tinha feito este disco há uns anos e bem melhor do que tu, ó Thom. Para que te foste meter nisto? Para que precisamos nós de mais não sei quantos Idiotheques e de outros tantos Everything in its right place? Para nada, não é? Pois é, jovem. Tens que pagar as contas, não é? A gente até compreende, mas não esperes que compre. Saca e é um pau.
Também sem ser demasiado original - que é como quem diz, a fazer a mesma coisa desde há uns bons 10 anos -, Stuart A. Staples acaba de dar ao mundo o seu segundo álbum a solo em dois anos. Chama-se Leaving Songs, e pese embora a sensação "onde é que eu já ouvi isto?", o resultado é bem mais satistfatório do que o do rapaz de Oxford com olho de peixe. E bem mais satisfatório, aliás, que o seu disco do ano passado, que era apenas uma colecção de canções que foram sendo gravadas sem grande nexo. Pop vintage, em versão orquestral ou mais inimista, na tradição dos melhores Tindersticks, muito bem composta, muito bem arranjada e muito bem interpretada com aquela voz de quem está quase a tomar a caixa completa de valiums para acompanhar a 2ª garrafa de bourbon. Em resumo, um belo disco.
No capítulo bandas com nomes esquisitos (que normalmente me tiram a vontade de ouvir os discos), os novaiorquinos Asobi Seksu (expressão que segundo o site oficial é japonês para "playful sex"... the kinky little bastards!) estão bem colocados para ganharem o troféu do ano. O seu novo Citrus, talvez disponível em aromas lima e limão, só me desagrada nalguns momentos em que me soa muito ligeiramente aos felizmente defuntos Cranberries. No resto, há uns pozinhos de My Bloody Valentine, de Lush, de Blonde Redheahd (provavelmente por terem uma vocalista japonoca) e de outras coisas na órbita do shoegaze. Uma banda a ouvir e a seguir.
Asobi Seksu - Walk on the moon (do álbum anterior)
Outra nova banda (para mim, pelo menos) são os bizarros e barulhentos Think about life. Abusam um bocado da distorção e do órgão, mas têm piada. Clap your hands say yeah + They might be giants + Monkees + Beck. Ou basicamente tudo à mistura. Podem vir a ser mais interessantes se atinarem e deixarem de querer ser os engraçadinhos da turma. Mas merecem uma audição, quand même.
Think About Life - Paul Cries (live @ Montreal, May 2006)
E para, literalmente, acabar em beleza falta falar das Pipettes, ou não se definissem as moçoilas como the prettiest gils you've ever met. Vamos acreditar que é uma chalaça para rimar com We are the pipettes, que por sinal é o nome do álbum. Pop mais pop não há, e garanto-vos que este verão hão-de ouvir muito esta nova versão das Ronnettes, Supremes, Bananarama ou Spice Girls (de acordo com a vossa disposição e gosto por girls' groups). Quase tão certo como daqui a um ano ninguém se lembrar que esta banda alguma vez existiu.
The Pipettes - Your kisses are wasted on me

Quote of the day - Beach Boys / Kokomo

Off the Florida Keys, there's a place called Kokomo
That's where you wanna go to get away from it all
Bodies in the sand, tropical drinks melting in your hand,
We'll be falling in love to the rhythm of a steel drum band,
Down in Kokomo...


A Classe de 70 iniciou a época balnear com dois saltinhos à Apúlia e a Labruge, e está em condições de assegurar que a nortada está tão boa como no ano passado.
Nada melhor do que chamar à colação a summer tune entre todas as summer tunes, a canção que sempre nos faz sentir com os pés molhados e a beber água de coco, nada mais nada menos que o tema do concerteza infame Cocktail (de que tenho a sorte de só conhecer o trailer).
Dada a mediocridade do vídeo da versão original, e na falta de clip para a melhor versão desta musica (a de Adam Greem e Ben Kweller), temos o grato prazer de vos proporcionar um reencontro com Cocas e Gonzo. E boa praia para todos!